segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Como "tirar" músicas de ouvido?

Ainda hoje, é muito difícil encontrar partituras de música popular fiéis à gravação original (mesmo quando publicadas e revisadas pelo autor!): além de erros de diversos tipos, em sua maioria são versões facilitadas (simplificadas) para serem acessíveis a um maior número de pessoas (desde os níveis mais iniciantes no instrumento). 

Assim, alunos mais avançados, músicos amadores e profissionais que trabalham com cover (reprodução fiel do original) precisam "tirar" as músicas "de ouvido" (reproduzi-las ouvindo a gravação) se quiserem uma execução idêntica.

Alguns tem, naturalmente, essa facilidade, identificando a altura exata do som (notas) apenas ouvindo: são pessoas que possuem ouvido absoluto (característica genética que lhes permite identificar, precisamente, a altura/freqüência dos sons que ouvem). 

Mas, ao contrário do que a maioria pensa, tirar uma música de ouvido não depende desse "dom divino" e também pode ser conseguido com treinamento específico: as pessoas de ouvido relativo (aquelas que não possuem ouvido absoluto) conseguem identificar a altura dos sons usando uma ou mais notas como referência para descobrir as outras (escolhem um som como parâmetro inicial, localizam-no, tocando num instrumento musical, e vão, em seqüência, localizando as demais). 

Ainda assim, mesmo dentre as pessoas que possuem ouvido relativo, algumas tem mais facilidade do que outras para desenvolver essa habilidade. As razões são diversas: vivência (estímulos recebidos desde a infância), características fisiológicas, formação educacional, cultural, religiosa, etc. Quem tem dificuldade acaba levando mais tempo para assimilar o treinamento, precisando ter mais persistência e dedicação para conseguir os mesmos resultados. 

E como se faz esse treinamento? Praticando. Aulas de Percepção (rítmica e melódica) dão um auxílio importante e vão, progressivamente, desenvolvendo a capacidade auditiva dos alunos desde os iniciantes. Para praticar em casa, comece tentando reproduzir, no piano, sons isolados e seqüências sonoras com poucas notas: campainhas, alertas sonoros (relógios, celulares), etc.

Quando estiver mais familiarizado com o processo de identificação/localização das notas, pegue uma música que seja bem familiar pra você (uma cantiga de roda, por exemplo) e tente reproduzir sua melodia: seqüência de notas que nos faz identificar uma música (geralmente, é a parte cantada). 

Selecione gravações de outras músicas e continue exercitando, tirando trechos da melodia, solo instrumental ou qualquer outra parte que conseguir reproduzir. Vá se desafiando continuamente, tirando trechos mais longos, mais rápidos e ritmicamente mais complexos. 

Já para identificar um acorde (agrupamento simultâneo de duas ou mais notas) e, consequentemente, a harmonia (seqüência de acordes) de uma música, é necessário um pouco mais de experiência/treinamento: comece identificando a nota mais grave do acorde que quer tirar. No caso de uma banda, use a nota do baixo (contra-baixo elétrico ou acústico) como referência. Depois, identifique as demais notas que estão sendo tocadas (numa banda, preste atenção nos instrumentos que estão fazendo o acompanhamento - geralmente, violão/guitarra e/ou piano/teclado), que farão notas complementares ao baixo para formar o acorde. Numa gravação com orquestra, concentre-se no naipe de cordas (violinos, violas e violoncelos).

Se encontrar dificuldade para reconhecer o acorde completo, experimente formar uma das quatro tríades básicas (Maior, Menor, Diminuta ou Aumentada) com a nota que o baixo está tocando (na maioria das vezes será a fundamental). Por exemplo: se o baixo estiver tocando a nota DÓ, experimente colocar um acorde que tenha essa nota como fundamental (Dó Maior, Dó Menor, Dó Diminuto ou Dó Aumentado). Se não for nenhum desses, tente algum que tenha a nota DÓ como sua quinta (Fá Maior, Fá Menor, Fá Sustenido Diminuto ou Mi Aumentado) ou como sua terça (Lá Bemol Maior, Lá Menor, Lá Diminuto ou Lá Bemol Aumentado). 

Se ainda não estiver conseguindo, pegue a letra cifrada (há vários sites disponíveis para isso) de uma música simples (com pouca variedade de acordes e que sejam sem sétima): obtenha sua gravação; toque, junto com ela, o primeiro acorde mostrado na cifragem e vá descobrindo os demais apenas escutando.

Só parta para estilos de harmonia mais complexa (bossa nova, MPB, jazz) depois de algum tempo de experiência. Aulas de Estruturação e Harmonia desenvolvem um embasamento teórico das técnicas de composição que servirá de guia quando o ouvido não conseguir discernir sozinho. 

Evidentemente, há complicações: acordes com quatro ou mais notas, arranjos incomuns, seqüências inusitadas, passagens muito rápidas, qualidade de gravação ruim, muitos instrumentos tocando ao mesmo tempo, entre outras coisas que dificultam o trabalho de percepção. Com treinamento, persistência e estudo (harmônico, melódico e rítmico) você acrescenta padrões de referência que vão tornando o procedimento mais rápido e eficiente.

Hoje em dia, ainda é possível encontrar softwares de computador e aplicativos de smartphones que realçam determinadas partes da música, diminuem a velocidade da gravação e outras facilidades que ajudam no trabalho.



Nenhum comentário:

Postar um comentário