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sábado, 26 de setembro de 2015

12 passos para criar o hábito de estudo numa criança

Atividades complexas, que exigem muito treinamento, nem sempre tem um começo agradável e estimulante. Leva-se um bom tempo estudando (com muita paciência e dedicação) para atingir um estágio satisfatório que comece a corresponder às expectativas dos alunos e/ou seus pais.

Acostumadas com prazeres momentâneos, crianças geralmente não gostam de praticar exercícios cujos benefícios só vão aparecer mais tarde. Para que, no entanto, seu desenvolvimento musical aconteça, é preciso 'envolvê-la' no processo, criando uma rotina de estudo. 

E como, praticamente, qualquer atividade, estudar também é um hábito que se adquire. Veja 12 dicas que ajudarão nessa tarefa: 

1) Crie o AMBIENTE necessário: deixe o instrumento sempre disponível e de fácil acesso, num lugar silencioso e com o menor número de distrações possíveis (telefone, TV, computador, videogame). Instrumentos eletrônicos (teclados e pianos digitais) oferecem a opção de tocá-los com fone de ouvido, muito útil em situações onde é impossível colocá-los num cômodo privativo, para o estudante não incomodar as outras pessoas da casa e não ser incomodado também;

2) Programe PERÍODOS CURTOS de estudo: crianças tem dificuldade de manter a concentração, numa mesma atividade, por mais de 15 minutos. Inicialmente, estabeleça um período de, no máximo, 10 minutos, todos os dias. À medida que o hábito esteja formado e houver possibilidade, aumente para dois ou mais períodos não consecutivos por dia. Só aumente o tempo de cada período se, pelo menos, um deles esteja sendo cumprido todos os dias (veja no blog: 6 passos para criar uma rotina de estudo);

3) Faça a PROGRAMAÇÃO do horário de estudo JUNTAMENTE com a criança: leve em consideração o ponto de vista dela para conseguir sua colaboração mais facilmente. Procure horários em que ela esteja descansada/disposta e que seu programa de TV preferido, por exemplo, não esteja passando;

4) Explique que TOCAR é diferente de ESTUDAR: ficar se divertindo no instrumento (tocando músicas conhecidas, tirando trechos "de ouvido", explorando livremente sua sonoridade e seus recursos) não é exatamente ESTUDAR. Apesar desse lazer ser fundamental para dar ânimo e desenvolver habilidades cognitivas importantes, o estudo musical não deve se resumir a isso. O desenvolvimento só será adequado se os exercícios propostos em aula forem praticados em casa. Programe apenas os períodos de ESTUDO (de acordo com o item nº 3 dessa lista). Os períodos de LAZER no instrumento devem ser livres e não entram nesse cálculo;

5) Ajude-a a criar um COMPROMISSO: obviamente que, para mudar sua rotina, a criança terá que deixar de fazer alguma coisa para estudar. Deixe claro que ela não estará abandonando aquilo que gosta, mas apenas diminuindo sua atividade, por 10 minutos, para conseguir fazer algo que poucas pessoas fazem (tocar um instrumento musical) e que todos gostariam de fazer;

6) Estude JUNTO: nas primeiras semanas de aula, é comum a criança ficar perdida no momento de estudar sozinha, em casa. Na maioria das vezes, é porque esquece as instruções/recomendações do professor. Nesse caso, o ideal seria um dos pais acompanhar algumas aulas (com o consentimento do professor) ou pedir uma explicação básica para poder orientar o estudo em casa, até que a criança seja capaz de "se virar" sozinha;

7) ELOGIE e incentive qualquer progresso: mesmo nas pequenas conquistas, um elogio sincero motiva a criança em prosseguir nos estudos e almejar desafios mais altos. É preciso entender que ela está praticando uma atividade difícil, que requer tempo e dedicação constante, com resultados demorados. Elogiando seus avanços, você fará com que ela também compreenda esse processo, o que é crucial para mantê-la motivada e ensiná-la a controlar a ansiedade;

8) Crie DESAFIOS: além dos elogios, estimule a criança oferecendo uma recompensa se ela cumprir um prazo determinado para terminar alguma lição. Importante que o prazo seja justo e realista, e que o prêmio seja, somente, representativo e sem valor material significativo, para não desvirtuar o aluno do objetivo de criar um ENGAJAMENTO e transformá-lo num mercenário motivado por interesse;

9) NÃO CONDICIONE o estudo a prêmios ou punições: estímulos são interessantes e importantes, mas não a ponto de serem a única razão para se fazer alguma coisa. Se o horário de estudo já foi definido (por ambas as partes) e a criança não o estiver cumprindo, converse com ela para descobrir as razões: reforce a necessidade de empenho para se conseguir algum resultado e que, sem ele, o dinheiro investido está sendo jogado fora. E punições não são eficazes para motivar alguém a se dedicar mais numa tarefa que, teoricamente, foi escolhida por vontade própria;

10) DIMINUA as atividades: encher a agenda de seu filho, com diversas atividades diferentes, farão com que ele perca o foco e não se dedique, satisfatoriamente, em nenhuma delas. É preferível fazer poucos cursos bem feitos do que vários de qualquer jeito. E o mais importante: crianças precisam de tempo para BRINCAR! Prodígios que, desde cedo, tem uma vida cheia de compromissos, quase sempre tornam-se adultos infelizes por não terem aproveitado o período da infância em sua plenitude;

11) NÃO COBRE resultados imediatos: cada pessoa, de qualquer idade, tem uma velocidade de assimilação diferente da outra. Os motivos podem ser vários: aptidões/dificuldades específicas, maior/menor disponibilidade de tempo, nível de dedicação/concentração, local/instrumento adequado, etc. Na fase inicial de estudo, pressionar uma criança para estudar raramente surtirá um efeito positivo. Na maioria das vezes, o resultado é inverso: muitos ex-alunos de piano, mesmo tendo completado o curso, tiveram uma experiência tão traumática, que pegaram aversão ao instrumento! (veja, também, no blog: Em quanto tempo estarei tocando?);

12) MUDE de instrumento: não adianta insistir que a criança estude piano quando ela quer, na verdade, tocar bateria! Mas, às vezes, nem ela mesma está certa sobre qual instrumento quer estudar. Isso é normal, tanto pela idade, como pelo fato de cada instrumento musical ter um fascínio diferente e particular. Se houver uma indecisão, experimente colocá-la para fazer algumas aulas de cada instrumento desejado: o contato direto facilitará sua escolha. 

Um ponto muito importante, a também ser considerado, é de JAMAIS OBRIGAR a criança a fazer qualquer um dos cursos: mesmo sendo, comprovadamente, muito importante na formação de qualquer pessoa, só quem estuda um instrumento musical tem a noção exata de sua dificuldade. Os que nunca tiveram um contato mais próximo com a prática musical, costumam alimentar a fantasia de que é preciso apenas de aptidão (talento natural) para exercê-la. Seu aprendizado se assemelha muito à prática esportiva: o talento ajuda no processo, mas não é essencial e nem elimina a necessidade de treinamento (veja, também, no blog: O que é TALENTO?).

Ao se deparar com a dificuldade e a demora dos resultados, muitos iniciantes querem desistir, pois não estão dispostos aos sacrifícios necessários. Muita vezes, essa característica é comportamental: veja se é um fato isolado ou se a criança abandona, constantemente, qualquer atividade ao menor sinal de complexidade. Converse com ela e explique que a maioria das coisas somente são possíveis com esforço/sacrifício. Se, mesmo assim, ela não quiser estudar música, não insista: a dedicação acontece naturalmente quando a vontade é ESPONTÂNEA (engajamento) e não através da FORÇA (repressão). Talvez mais tarde, com a maturidade e a disciplina mais desenvolvidas, ela volte a se interessar.



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Como "tirar" músicas de ouvido?

Ainda hoje, é muito difícil encontrar partituras de música popular fiéis à gravação original (mesmo quando publicadas e revisadas pelo autor!): além de erros de diversos tipos, em sua maioria são versões facilitadas (simplificadas) para serem acessíveis a um maior número de pessoas (desde os níveis mais iniciantes no instrumento). 

Assim, alunos mais avançados, músicos amadores e profissionais que trabalham com cover (reprodução fiel do original) precisam "tirar" as músicas "de ouvido" (reproduzi-las ouvindo a gravação) se quiserem uma execução idêntica.

Alguns tem, naturalmente, essa facilidade, identificando a altura exata do som (notas) apenas ouvindo: são pessoas que possuem ouvido absoluto (característica genética que lhes permite identificar, precisamente, a altura/frequência dos sons que ouvem). 

Mas, ao contrário do que a maioria pensa, tirar uma música de ouvido não depende desse "dom divino" e também pode ser conseguido com treinamento específico: as pessoas de ouvido relativo (aquelas que não possuem ouvido absoluto) conseguem identificar a altura dos sons usando uma ou mais notas como referência para descobrir as outras (escolhem um som como parâmetro inicial, localizam-no, tocando num instrumento musical, e vão, em seqüência, localizando as demais). 

Ainda assim, mesmo dentre as pessoas que possuem ouvido relativo, algumas tem mais facilidade do que outras para desenvolver essa habilidade. As razões são diversas: vivência (estímulos recebidos desde a infância), características fisiológicas, formação educacional, cultural, etc. Quem tem dificuldade acaba levando mais tempo para assimilar o treinamento, precisando ter mais persistência e dedicação para conseguir os mesmos resultados. 

E como se faz esse treinamento? Praticando. Aulas de Percepção (rítmica e melódica) dão um auxílio importante e vão, progressivamente, desenvolvendo a capacidade auditiva dos alunos desde os iniciantes. Para praticar em casa, comece tentando reproduzir, no piano, sons isolados e seqüências sonoras com poucas notas: campainhas, alertas sonoros (relógios, celulares), etc.

Quando estiver mais familiarizado com o processo de identificação/localização das notas, pegue uma música que seja bem familiar pra você (uma cantiga de roda, por exemplo) e tente reproduzir sua melodia: seqüência de notas que nos faz identificar uma música (geralmente, é a parte cantada). 

Selecione gravações de outras músicas e continue exercitando, tirando trechos da melodia, solo instrumental ou qualquer outra parte que conseguir reproduzir. Vá se desafiando continuamente, tirando trechos mais longos, mais rápidos e ritmicamente mais complexos. 

Já para identificar um acorde (agrupamento simultâneo de duas ou mais notas) e, consequentemente, a harmonia (seqüência de acordes) de uma música, é necessário um pouco mais de experiência/treinamento: comece identificando a nota mais grave do acorde que quer tirar. No caso de uma banda, use a nota do baixo (contra-baixo elétrico ou acústico) como referência. Depois, identifique as demais notas que estão sendo tocadas (numa banda, preste atenção nos instrumentos que estão fazendo o acompanhamento - geralmente, violão/guitarra e/ou piano/teclado), que farão notas complementares ao baixo para formar o acorde. Numa gravação com orquestra, concentre-se no naipe de cordas (violinos, violas e violoncelos).

Se encontrar dificuldade para reconhecer o acorde completo, experimente formar uma das quatro tríades básicas (Maior, Menor, Diminuta ou Aumentada) com a nota que o baixo está tocando (na maioria das vezes será a fundamental). Por exemplo: se o baixo estiver tocando a nota DÓ, experimente colocar um acorde que tenha essa nota como fundamental (Dó Maior, Dó Menor, Dó Diminuto ou Dó Aumentado). Se não for nenhum desses, tente algum que tenha a nota DÓ como sua quinta (Fá Maior, Fá Menor, Fá Sustenido Diminuto ou Mi Aumentado) ou como sua terça (Lá Bemol Maior, Lá Menor, Lá Diminuto ou Lá Bemol Aumentado). 

Se ainda não estiver conseguindo, pegue a letra cifrada (há vários sites disponíveis para isso) de uma música simples (com pouca variedade de acordes e que sejam sem sétima): obtenha sua gravação; toque, junto com ela, o primeiro acorde mostrado na cifragem e vá descobrindo os demais apenas escutando.

Só parta para estilos de harmonia mais complexa (bossa nova, MPB, jazz) depois de algum tempo de experiência. Aulas de Estruturação e Harmonia desenvolvem um embasamento teórico das técnicas de composição que servirá de guia quando o ouvido não conseguir discernir sozinho. 

Evidentemente, há complicações: acordes com quatro ou mais notas, arranjos incomuns, seqüências inusitadas, passagens muito rápidas, qualidade de gravação ruim, muitos instrumentos tocando ao mesmo tempo, entre outras coisas que dificultam o trabalho de percepção. Com treinamento, persistência e estudo (harmônico, melódico e rítmico) você acrescenta padrões de referência que vão tornando o procedimento mais rápido e eficiente.

Hoje em dia, ainda é possível encontrar softwares de computador e aplicativos de smartphones que realçam determinadas partes da música, diminuem a velocidade da gravação e outras facilidades que ajudam no trabalho.